domingo, 6 de junho de 2010

Sala d'um AP

Para ler ouvindo Flash-back
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Antes

Quando chegou eu ainda estava só de calças e camisa ainda por fora, sem cinto, nem meias, nem sapatos. Nem o perfume que comprei especialmente havia posto ainda.
Pedi licença para terminar de me arrumar, mas ela disse que não precisava, afinal, já me conhecia o suficiente para não termos esse tipo de cerimônia. Isso me animou durante alguns segundos, tempo o suficiente para me dizer que tinha pressa, pois ainda iria buscar o filho na casa da irmã...
Ela olhava tudo percebendo que quase nada aqui havia mudado, e parecia que isso não lhe agradava muito. Sentamos e tentamos conversar, mas nada tinha a me dizer, e mais nada tinha eu para lhe falar. Me entregou um presente, que não fiz questão de abrir, e ela parecia também não se importar se eu iria gostar ou não.
Ficamos em silêncio, ela a olhar a capa do caderno em cima da mesa como se não tivesse olhado para nada, sem sequer imaginar o seu conteúdo. Quebrou o silêncio dizendo que tinha que ir, ainda iria arrumar suas malas para viajar no dia seguinte. Imaginei seu marido a esperando no aeroporto e aquilo fez com que me despedisse dela como me despedi um dia dos amigos que moraram comigo.
Ao fechar a porta o mundo girou e eu me senti como se estivesse bêbado, e lembrei que já tinha dois dias que não bebia. De repente a vontade incontrolável, e diária, de pôr álcool na boca tomou conta de mim.
Fui bebendo até não saber mais o que fazia, até não lembrar mais de nada, até... não sei.

Escrito em algum dia de agosto de 2001, para o módulo Interpretação III, ministrado pelo professor Antônio do Valle, durante a formação da 3ª turma do (extinto) Colégio de Direção Teatral do Instituto Dragão do Mar

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